A verdade do trabalho dos crônicas esportivos de futebol

 Há algo de mágico no jornalismo esportivo brasileiro que nem mesmo o mais criativo dos roteiristas de novela conseguiria reproduzir. Não se trata apenas de informar, opinar ou analisar — isso seria simples demais. Estamos falando de um fenômeno muito mais sofisticado: a capacidade quase sobrenatural de prever convocações antes mesmo do técnico fazê-las. Sim, senhoras e senhores, eis que surgem os novos “técnicos da Seleção”, agora promovidos diretamente das redações e canais de YouTube para o seleto grupo de iluminados que sabem mais do que o próprio Carlo Ancelotti, ou como alguns insistem em chamar, “Anteloti”. Afinal, para que serve um treinador com décadas de experiência internacional se temos comentaristas que, munidos de um microfone e um palpite bem ensaiado, conseguem antecipar até o futuro?

E o caso mais recente dessa clarividência coletiva atende pelo nome de Estevão Willian. O jovem talento, que sequer teve sua situação definida oficialmente por questões físicas, já aparece em listas, debates acalorados e até em escalações imaginárias como presença garantida. Não importa se há lesão, dúvida médica ou cautela técnica — para os “jornalistas técnicos”, isso é mero detalhe. O que vale é a convicção, aquela mesma que transforma especulação em “informação de bastidor” e achismo em manchete. É quase um dom: eles não apenas informam, eles materializam realidades alternativas onde suas previsões sempre se confirmam… pelo menos até a convocação oficial desmentir tudo, o que, claro, será convenientemente ignorado.

Aliás, fica aqui uma sugestão humilde — e extremamente necessária — à Caixa Econômica Federal: por que não convidar esses gênios da previsão esportiva para participar da Mega-Sena? Se conseguem cravar nomes em convocações que ainda nem existem, certamente terão facilidade em antecipar seis números entre sessenta. Imaginem o impacto social disso! Acabariam com filas, bolões e até com a ansiedade nacional a cada concurso acumulado. Bastaria ligar para um desses comentaristas iluminados e perguntar: “Meu caro, já que você sabe quem será convocado antes do técnico, poderia também nos informar os próximos números sorteados?” Pronto. Problema resolvido. O Brasil finalmente teria previsibilidade — ainda que baseada em puro chute com convicção.

Mas não para por aí. O mais curioso é observar a segurança com que essas previsões são defendidas. Não há espaço para dúvida, cautela ou sequer um “talvez”. O tom é sempre de quem teve acesso direto ao treinador, participou da reunião da comissão técnica e ainda opinou sobre o esquema tático. Quando, inevitavelmente, a realidade não corresponde à previsão, entra em cena o malabarismo retórico: “houve mudança de última hora”, “informação foi alterada internamente”, “decisão surpreendeu até a comissão”. Ou seja, o erro nunca é erro — é apenas uma “reconfiguração dos fatos”. Conveniente, não?

Enquanto isso, o torcedor, que muitas vezes busca informação séria e análise qualificada, acaba sendo tratado como figurante nesse espetáculo de egos inflados. Em vez de jornalismo, recebe entretenimento disfarçado de bastidor. Em vez de apuração, ganha narrativa. E assim segue o ciclo: um fala, o outro repercute, o terceiro concorda, e pronto — nasce uma “verdade” que, curiosamente, só existe dentro daquele próprio circuito. Quando a convocação real sai, não há autocrítica, não há revisão, não há aprendizado. Apenas um novo ciclo começa, com novas previsões, novas certezas e, claro, novas oportunidades de errar com absoluta convicção.

No fim das contas, talvez estejamos sendo injustos. Quem somos nós para duvidar de tamanha capacidade preditiva? Talvez o problema não esteja neles, mas em nós, meros mortais que ainda acreditam que decisões técnicas são tomadas por técnicos e não por comentaristas. Portanto, fica aqui o apelo final: nobres “jornalistas técnicos da Seleção Brasileira”, já que vocês dominam o futuro com tamanha precisão, compartilhem conosco algo realmente útil. Deixem de lado por um momento as convocações imaginárias e nos brindem com os números da próxima Mega-Sena acumulada. O país agradece. E quem sabe, com o prêmio em mãos, possamos finalmente contratar vocês para dirigir a Seleção — afinal, prever já provaram que sabem… só falta acertar.

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