Entre o microfone e a rodoviária – reflexões de um brasiliense sobre a marginalidade em Goiânia
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Por Roberto Ferreira
Sou Roberto Ferreira, radialista brasiliense. Muita gente na capital me conhece pela voz antes do rosto. Sempre digo que o rádio é minha trincheira, meu modo de conversar com o povo sem filtro, de contar o que vejo e, principalmente, de ouvir o que o povo sente. Apesar de ter construído minha carreira em Brasília, nos últimos anos tenho passado muito tempo em Goiânia, essa cidade vibrante, quente e acolhedora, mas também marcada por contrastes que gritam aos ouvidos de quem presta atenção.
Recentemente, precisei ir à rodoviária de Goiânia — aquele imenso complexo que também abriga um shopping center. De longe, parece símbolo de modernidade e progresso: vitrines reluzentes, ar-condicionado, escadas rolantes, lojas de franquia. Mas, ao pisar fora do piso de cerâmica brilhante e olhar em volta, o cenário muda como o fim repentino de uma música alegre. A poucos metros dali, começa outra Goiânia — a Goiânia dos esquecidos.
Ali, nos arredores da rodoviária, a marginalidade respira em cada esquina. Não falo apenas de criminalidade no sentido formal da palavra, mas de um tipo de exclusão que empurra pessoas para sobreviverem como podem — catando latinhas, oferecendo balas, pedindo moedas, vendendo o que sobrou da esperança. São homens, mulheres e jovens que se misturam ao fluxo dos passageiros e lojistas. À noite, a iluminação amarelada realça os rostos cansados de quem dorme em bancos de concreto, enrolado em cobertores rasgados, enquanto os seguranças do shopping fazem de tudo para afastá-los das entradas.
O contraste me incomodou profundamente. Dentro, o consumo; fora, a carência. Dentro, a pressa das pessoas com sacolas cheias; fora, o silêncio dos que têm fome. E o que mais me chamou a atenção foi algo pequeno, quase banal, mas simbólico: não há um único ponto decente para carregar o celular. Em pleno século XXI, um espaço que se autoproclama “shopping da rodoviária” não oferece sequer uma tomada pública. Para quem tem um lar e uma tomada à disposição, pode parecer detalhe. Mas para o viajante que depende do celular para se comunicar, para o mototaxista que faz corridas pelo aplicativo, ou para o morador de rua que tenta conseguir um bico por mensagem, isso é uma sentença de isolamento digital.
Enquanto observava o vai e vem, pensei no quanto as cidades brasileiras ainda tratam a população mais vulnerável como um incômodo a ser varrido das calçadas. Goiânia não é exceção — mas ali, naquele ponto de passagem, tudo se torna mais visível. A rodoviária é um espelho da desigualdade: de um lado, o brilho do consumo; do outro, a sombra do abandono. E entre esses dois mundos, transitam todos — inclusive eu, um radialista que sempre acreditou no poder da comunicação como ponte entre realidades.
Fiquei imaginando quantas histórias cabem naquelas escadarias, quantos sonhos chegaram ali e ficaram pelo caminho. A moça que vende doces com o filho no colo, o rapaz que toca violão para juntar dinheiro da passagem, o idoso que diz esperar um ônibus que nunca vem. Cada um carrega sua própria notícia, seu próprio boletim da vida real — mas quase ninguém escuta.
Quando volto a Brasília e ligo o microfone, costumo dizer que o rádio é uma tomada invisível: é ali que o povo conecta sua voz. Mas o que vi na rodoviária de Goiânia me fez pensar que precisamos de mais do que tomadas — precisamos de empatia, de políticas públicas, de humanidade. A marginalidade não nasce do nada; ela brota da indiferença.
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