Um retrato da rodoviária interestadual de Brasília: o contraste entre o luxo e o descaso
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Um retrato da rodoviária interestadual de Brasília: o contraste entre o luxo e o descaso
Por Roberto Ferreira
Todos os dias, passo pela Rodoviária Interestadual de Brasília e sinto um misto de indignação e tristeza. Aquele espaço, que deveria representar acolhimento e dignidade para quem chega ou parte da capital do país, tornou-se um retrato cruel da desigualdade e do abandono. É como se o tempo tivesse parado por ali — e parado no pior sentido.
O primeiro choque vem logo na entrada. Um terminal rodoviário sem banheiro disponível na área de embarque é, no mínimo, um desrespeito à condição humana. É inaceitável que milhares de passageiros, muitos vindos de longe, tenham que se virar sem um espaço digno para suas necessidades mais básicas. O que deveria ser um direito básico virou um luxo, e o que é essencial foi transformado em mercadoria.
Enquanto isso, basta dar alguns passos e olhar para os preços praticados nas lanchonetes e quiosques. É um escárnio. Um simples salgado, que em um atacadão ou até em um shopping custa um valor razoável, ali é vendido como se fosse iguaria gourmet. Uma garrafa de água chega a custar o dobro do preço praticado nas lojas populares do entorno. Parece que a lógica é punir o viajante pela sua necessidade — e o mais grave é que a maioria que transita por ali é justamente quem menos pode pagar caro.
E onde está a responsabilidade da Socicam, empresa que administra o terminal? No papel, ela deveria zelar pela estrutura, pelo conforto e pela segurança de quem utiliza o espaço. Na prática, o que vejo é descuido, má conservação e um serviço cada vez mais distante do interesse público. O ambiente é desorganizado, a limpeza é precária e a sensação é de que ninguém fiscaliza nada.
A rodoviária interestadual de Brasília é um ponto de passagem, mas também um símbolo. Ela revela o abismo social de uma cidade planejada para ser moderna, mas que insiste em tratar o povo como invisível. Enquanto o entorno se enche de mercados, shoppings e atacadões bem estruturados, lá dentro o viajante continua preso num cenário de abandono.
Eu, como cidadão e comunicador, não posso me calar diante disso. A rodoviária é a porta de entrada e saída de milhares de brasileiros todos os dias — e merecia ser um espaço de respeito, conforto e dignidade. Brasília, com toda sua grandeza, não pode aceitar que seu terminal interestadual continue sendo um retrato fiel da pobreza institucionalizada.
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário