O erro de quem usa o termo fake news

 Existe uma expressão que ganhou popularidade nos últimos anos e que, repetida à exaustão, acabou se tornando um curioso paradoxo linguístico: “fake news”. Traduzida ao pé da letra como “notícia falsa”, ela carrega em si uma contradição quase cômica. Afinal, desde quando uma mentira pode ser classificada como notícia? A própria essência do jornalismo — ou pelo menos do jornalismo sério — é o compromisso com a verdade, com a apuração dos fatos e com a responsabilidade de informar. Quando esse compromisso é rompido, o que sobra não é uma “notícia falsa”, mas simplesmente uma mentira, uma fraude ou, na melhor das hipóteses, uma desinformação mal disfarçada.

O uso indiscriminado do termo “fake news” acabou criando uma espécie de zona cinzenta onde tudo parece relativo. Uma informação mentirosa, que antes seria prontamente descartada como boato ou invenção, ganha um rótulo sofisticado, quase técnico, que parece lhe conferir um certo status. É como se a mentira tivesse sido reembalada com uma aparência mais aceitável. Mas não se engane: mudar o nome não altera a natureza das coisas. Chamar mentira de “fake news” não a torna menos mentira, apenas mais palatável para quem deseja consumi-la sem peso na consciência.

Há também um problema conceitual importante nessa expressão. A palavra “notícia” pressupõe veracidade, relevância e interesse público. Ela nasce de um processo que envolve investigação, checagem e responsabilidade editorial. Quando alguém produz ou compartilha algo sabidamente falso, esse conteúdo não passou por esse processo — logo, não pode ser considerado notícia em hipótese alguma. O termo mais adequado, portanto, seria “desinformação”, “boato” ou simplesmente “mentira”. Ao insistir na expressão “fake news”, cria-se uma confusão desnecessária que enfraquece o próprio entendimento do que é informação de qualidade.

Outro ponto curioso é como o termo passou a ser utilizado de forma estratégica. Não apenas para definir conteúdos falsos, mas também como arma retórica para desacreditar informações verdadeiras que desagradam determinados interesses. Assim, qualquer notícia incômoda pode ser rapidamente rotulada como “fake news”, independentemente de sua veracidade. Esse uso distorcido amplia ainda mais o caos informacional, pois coloca no mesmo saco tanto a mentira descarada quanto a reportagem séria. O resultado é uma sociedade cada vez mais desconfiada, onde a verdade disputa espaço com narrativas fabricadas.

É importante destacar que a existência de mentiras sempre fez parte da história humana. Boatos, fofocas e manipulações não nasceram com a internet. O que mudou foi a velocidade e o alcance com que essas informações circulam. Hoje, uma mentira pode atravessar o mundo em segundos, impulsionada por redes sociais e aplicativos de mensagem. No entanto, isso não justifica a criação de termos que confundem mais do que esclarecem. Pelo contrário, exige ainda mais rigor na forma como classificamos e combatemos esse tipo de conteúdo.

Portanto, talvez seja hora de abandonar esse modismo linguístico e chamar as coisas pelo nome correto. Não existe “notícia falsa” — existe notícia ou existe mentira. Misturar os dois conceitos só contribui para a desinformação que se pretende combater. Em vez de sofisticar a mentira com termos em inglês, seria mais honesto — e mais eficaz — reconhecê-la como ela realmente é. Porque, no fim das contas, a verdade não precisa de adjetivos, enquanto a mentira costuma precisar de muitos disfarces.

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