Postagens

Aula de evangelho grátis

 A crescente prática de igrejas que anunciam a presença de “profetas de Deus” em cultos e eventos levanta uma discussão necessária sobre coerência bíblica e responsabilidade espiritual. Muitos desses encontros são divulgados com forte apelo emocional, prometendo revelações exclusivas, palavras direcionadas e experiências sobrenaturais que, na prática, acabam mais próximas de um espetáculo do que de um momento genuíno de fé. O problema não está na busca espiritual em si, mas na forma como ela é conduzida, frequentemente explorando a expectativa das pessoas. Quando se recorre ao próprio texto bíblico, especialmente ao Livro de Números e à progressão histórica que culmina no Evangelho de Lucas, há uma compreensão clara de que o papel dos profetas tinha um contexto específico, ligado à revelação direta antes da consolidação da mensagem central do cristianismo. Dentro dessa perspectiva, a figura do profeta bíblico não era itinerante no sentido moderno de “agenda de eventos”, tampouco se...

Ensinando aos apresentadores sergipanos

 Se existe um talento peculiar em certos programas policiais de televisão, especialmente nas versões mais espalhafatosas que ecoam pelas telas sergipanas, é a capacidade de confundir conceitos jurídicos básicos com uma segurança digna de quem jamais abriu um código penal. É impressionante como, em meio a trilhas dramáticas, closes exagerados e frases de efeito, surgem pérolas como “foi uma tentativa de latrocínio, ou melhor, um latrocínio tentado, ou quem sabe um latrocínio mesmo”, tudo dito como se fosse a mesma coisa. Não é. E talvez esteja na hora de trocar um pouco da gritaria por um mínimo de precisão, porque informação errada, quando repetida com convicção, vira desinformação com plateia. Então, vamos lá: sem perder o tom didático, mas também sem poupar a ironia que o cenário merece. Primeiro, é preciso entender o que é latrocínio de fato. Latrocínio não é simplesmente “roubo com morte” dito de forma genérica no improviso televisivo. Juridicamente, trata-se de um crime contra...

A prostituição do mercado publicitário de Sergipe

 Há algo profundamente errado quando profissionais de comunicação, especialmente radialistas em Sergipe, passam a tratar o próprio trabalho como se fosse descartável, barato e sem valor. Cobrar cinco reais para gravar uma vinheta ou um spot comercial de 30 segundos não é apenas um preço baixo — é um desrespeito escancarado com a profissão, com os colegas de área e com o próprio mercado. Não se trata de elitismo ou de impedir que novos talentos entrem na área, mas de reconhecer que comunicação é técnica, é experiência, é investimento em voz, equipamento, edição e, acima de tudo, em credibilidade. Quando alguém aceita receber esse valor simbólico, praticamente inexistente, está assinando um atestado de desvalorização coletiva. É como dizer que todo o esforço necessário para produzir um material de qualidade não vale mais que uma moeda esquecida no bolso. E isso não afeta apenas quem cobra barato — afeta todos. O mais revoltante é perceber que essa prática cria um efeito dominó destru...

Leilão para concorrência ANTT?

 A atuação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) no cenário atual do transporte rodoviário interestadual levanta questionamentos cada vez mais difíceis de ignorar. De um lado, a agência promove discursos e iniciativas voltadas à modernização do setor, como a tentativa de leilão de linhas, apresentada como solução para ampliar a concorrência e melhorar a qualidade dos serviços. De outro, na prática cotidiana, o que se observa é uma evidente contradição entre o discurso regulatório e a fiscalização efetiva. Empresas que acumulam reclamações por serviços precários continuam operando normalmente, enquanto novos processos licitatórios são anunciados como se o problema estivesse apenas na entrada de novos operadores. Essa postura cria a sensação de que a ANTT busca resolver um problema estrutural com medidas superficiais, ignorando falhas graves naquilo que já existe. Nesse contexto, é impossível não citar a permanência de empresas como a Novo Horizonte e a Entran, frequen...

Incompetência do executivo e legislativo

 O bairro Fernando Collor, localizado no município de Nossa Senhora do Socorro, tornou-se ao longo dos anos um retrato incômodo da negligência do poder público municipal. Criado com a promessa de oferecer moradia digna e infraestrutura básica para centenas de famílias, o que se vê hoje é um cenário de abandono que beira o descaso institucionalizado. Ruas esburacadas, iluminação precária, ausência de saneamento adequado e equipamentos públicos insuficientes fazem parte do cotidiano dos moradores. Não se trata de uma crítica vazia ou exagerada, mas de uma constatação visível para qualquer pessoa que percorra a região. O bairro, que deveria ser símbolo de desenvolvimento urbano planejado, acabou se tornando um exemplo claro de como a falta de continuidade administrativa e de compromisso político pode comprometer a qualidade de vida de toda uma população. A precariedade da infraestrutura urbana no Fernando Collor é gritante e afeta diretamente aspectos básicos da dignidade humana. Em d...

Homenagem a um amigo

 A trajetória de Ronaldo Cunha Lima permanece como uma das mais marcantes da política nordestina, não apenas pelo que representou institucionalmente, mas pela forma singular com que soube traduzir sentimentos em palavras e ações. Poeta por vocação e político por missão, ele construiu uma imagem pública que ultrapassava o pragmatismo comum da vida partidária. Em seus discursos, havia sempre uma tentativa de elevar o debate, de imprimir humanidade em temas áridos e de lembrar que a política, antes de tudo, deveria servir às pessoas. Sua passagem pelo Senado Federal e pelo governo da Paraíba não foi apenas administrativa; foi também simbólica, carregada de gestos e de uma identidade cultural que dialogava diretamente com o povo. Ronaldo Cunha Lima não era apenas um homem público, era uma figura que conseguia emocionar, provocar reflexão e, ao mesmo tempo, manter firme sua presença nos momentos decisivos da história política paraibana. Ao longo de sua vida, enfrentou desafios que testa...

Editorial: Olha o "golpi de adivogadus"

 Em 2026, o espetáculo jurídico nas redes sociais ganhou um novo gênero: o “direito criativo instantâneo”. Nele, alguns advogados, munidos de ring light e uma confiança inabalável, anunciam a possibilidade de “transformar auxílio-doença em aposentadoria” como se estivessem oferecendo um truque de mágica — rápido, simples e, claro, com resultados garantidos. O problema é que, fora do roteiro dessas postagens cuidadosamente editadas, existe um pequeno detalhe inconveniente: o benefício chamado “auxílio-doença” não existe mais com essa nomenclatura. Desde a reforma administrativa da legislação previdenciária, o termo correto é auxílio por incapacidade temporária . Mas quem precisa de precisão técnica quando o objetivo é viralizar, não é mesmo? A ironia começa exatamente aí. Profissionais que deveriam prezar pelo rigor jurídico e pela clareza das informações optam por utilizar termos ultrapassados e, pior, promessas que não encontram respaldo na legislação. A ideia de “converter automa...

Homenagem ao ex governador Marcelo

 Falar de Marcelo Déda é, antes de tudo, revisitar um tempo em que a política conseguia dialogar com a dignidade, mesmo em meio às divergências ideológicas. Filiado ao Partido dos Trabalhadores, Déda construiu sua trajetória dentro de uma linha claramente situada à esquerda do espectro político, defendendo pautas sociais e um modelo de gestão voltado à inclusão. Ainda assim, sua atuação nunca se limitou a um campo fechado de aliados. Pelo contrário, uma das marcas mais fortes de sua vida pública foi justamente a capacidade de estabelecer pontes com adversários, cultivando o respeito mútuo em um cenário frequentemente dominado por conflitos acirrados. Esse reconhecimento não partia apenas de seus correligionários, mas também de opositores que, mesmo discordando de suas ideias, viam nele um homem de palavra, coerente e comprometido com o interesse público. Ao longo de sua carreira, que incluiu passagens como deputado federal e governador de Sergipe, Déda demonstrou que a política pod...