A prostituição do mercado publicitário de Sergipe
Há algo profundamente errado quando profissionais de comunicação, especialmente radialistas em Sergipe, passam a tratar o próprio trabalho como se fosse descartável, barato e sem valor. Cobrar cinco reais para gravar uma vinheta ou um spot comercial de 30 segundos não é apenas um preço baixo — é um desrespeito escancarado com a profissão, com os colegas de área e com o próprio mercado. Não se trata de elitismo ou de impedir que novos talentos entrem na área, mas de reconhecer que comunicação é técnica, é experiência, é investimento em voz, equipamento, edição e, acima de tudo, em credibilidade. Quando alguém aceita receber esse valor simbólico, praticamente inexistente, está assinando um atestado de desvalorização coletiva. É como dizer que todo o esforço necessário para produzir um material de qualidade não vale mais que uma moeda esquecida no bolso. E isso não afeta apenas quem cobra barato — afeta todos.
O mais revoltante é perceber que essa prática cria um efeito dominó destrutivo. O cliente, naturalmente, começa a achar que aquele preço absurdo de baixo é o “normal” e passa a questionar qualquer profissional que cobre um valor justo. O resultado? Profissionais sérios, que investiram em formação, em equipamentos e em aperfeiçoamento, acabam sendo pressionados a reduzir seus preços ou perdem espaço para quem aceita trabalhar quase de graça. Isso não é concorrência saudável; é uma corrida para o fundo do poço. E, no meio disso tudo, a qualidade do material entregue também despenca. Afinal, quem trabalha por cinco reais dificilmente terá condições de oferecer estrutura adequada, tempo de dedicação e cuidado técnico. O barato, nesse caso, sai caro — não só para o cliente, mas para a imagem da comunicação local como um todo.
É preciso dizer com todas as letras: isso não é democratização do mercado, é precarização. Existe uma diferença enorme entre ser acessível e ser explorado — ou pior, se autoexplorar. Quando um radialista aceita esse tipo de valor, ele não está sendo “humilde” ou “estratégico”; está contribuindo para a banalização de uma profissão que já enfrenta desafios suficientes. Comunicação não é favor, não é “quebra-galho”, não é algo que se faz por troco. É um serviço que exige preparo, domínio da voz, interpretação, conhecimento de roteiro e noções de marketing. Reduzir tudo isso a cinco reais é como rasgar anos de construção profissional. E o mais irônico é que muitos desses mesmos profissionais depois reclamam da falta de reconhecimento, sem perceber que estão alimentando exatamente o problema que os prejudica.
Chega de normalizar o absurdo. É hora de os profissionais de comunicação em Sergipe — e em qualquer lugar — entenderem que valor não se negocia nesse nível de humilhação. É possível cobrar preços competitivos sem destruir o mercado. É possível crescer sem puxar todos para baixo. Mas isso exige consciência coletiva, postura e, principalmente, respeito pela própria profissão. Quem cobra cinco reais por um trabalho técnico não está sendo esperto; está sendo cúmplice de um sistema que desvaloriza e enfraquece toda a categoria. E enquanto isso continuar sendo tratado como algo comum, o mercado seguirá doente, desorganizado e cada vez mais injusto com quem realmente leva a comunicação a sério.
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