Canoas e Porto Alegre: entre pichações, frio e salgadinhos com ovo
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Quando desembarquei em Canoas, no Rio Grande do Sul, eu não imaginava que o frio dali seria tão cortante. Vindo de Brasília, onde o vento seco até incomoda, mas o frio raramente congela os ossos, eu me vi de repente em um cenário que parecia outro país. O ar gelado me acompanhava em cada passo, e o silêncio das ruas no fim de semana me deixou com a sensação de ter chegado a uma cidade fantasma.
Era um sábado. O comércio fechado, poucos carros passando e um vento insistente varrendo as avenidas. Canoas parecia deserta, quase melancólica. Caminhando pelas ruas, o que mais me chamou atenção foram as pichações — uma presença constante nas paredes, viadutos e fachadas. Não era arte de rua; eram marcas de abandono, de descontentamento, talvez de revolta. As letras e símbolos se misturavam como um grito silencioso de uma juventude esquecida.
A primeira impressão foi dura. Mas é o tipo de coisa que o Roberto no Trecho gosta de registrar: o que está fora do roteiro turístico, o que o olhar apressado não vê. Canoas, naquele fim de semana gelado de 2021, me mostrou o outro lado do Sul — aquele que não aparece nas propagandas nem nos cartões-postais.
Segui viagem para Porto Alegre, e ali a sensação de desigualdade se intensificou. A capital gaúcha, embora mais movimentada, mostrava sinais claros de pobreza nas esquinas, nas praças e sob os viadutos. Pessoas pedindo comida, famílias improvisando abrigo, e um frio que não perdoa quem dorme ao relento. Aquilo me tocou profundamente.
Mas Porto Alegre também me surpreendeu em outros detalhes — pequenos, porém marcantes. Lembro de um boteco onde comi um salgado que nunca tinha visto igual: um pastel com pedaços de ovo cozido dentro. Estranho à primeira vista, mas saboroso, com aquele tempero caseiro e simples que a gente só encontra em lanchonetes de bairro. A cidade pode ser dura, mas tem alma — e ela se revela nesses gestos, nesses sabores.
O que não foi nada saboroso, porém, foi lidar com o transporte. As empresas de ônibus pareciam fazer questão de tratar o passageiro com descaso. Ônibus lotados, horários furados, atendentes mal-humorados. Um contraste gritante com o frio educado dos gaúchos que conheci pelas ruas.
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