Rio de Janeiro: bonito, mas perigoso – minha experiência no trecho
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Rio de Janeiro: bonito, mas perigoso – minha experiência no trecho
Eu sou o Roberto, criador do Roberto no Trecho, programa que nasceu da minha paixão por estrada, rádio e pelas histórias que a gente encontra no caminho. Já rodei boa parte desse Brasilzão com meu microfone e um coração aberto para conhecer gente, cultura e lugares. Mas confesso que há destinos que me deixaram dividido — um deles é o Rio de Janeiro. Bonito? Demais. Mas, infelizmente, perigoso como poucos lugares que já visitei.
Não é de hoje que o Rio é vendido como o cartão-postal do Brasil. O mar azul, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, a alegria do povo, o samba, o futebol... tudo isso é real, é encantador. Eu mesmo, quando cheguei pela primeira vez, fiquei boquiaberto com a beleza natural da cidade. Aquela combinação de montanha, floresta e mar é coisa que não se vê em outro lugar do mundo. Mas o encanto, pra mim, foi se misturando com um certo medo — e esse medo, infelizmente, foi crescendo a cada visita.
Eu, que venho de Brasília, estou acostumado com uma cidade planejada, organizada, em que você anda com alguma tranquilidade. No Rio, eu senti outra energia — uma mistura de beleza e tensão no ar. E essa tensão se confirmou logo nas minhas primeiras horas por lá.
Lembro bem de uma vez, em Copacabana. Eu estava gravando umas entradas para o programa, falando sobre o pôr do sol na praia, o clima descontraído, aquele vai e vem de gente bonita. Em menos de quinze minutos, um rapaz passou correndo e levou meu celular da mão. Um vacilo, claro, mas nada que não pudesse acontecer em qualquer cidade, certo? A diferença é que ali todo mundo olhou, ninguém reagiu, e logo um ambulante me disse: “Aqui é assim mesmo, parceiro. Fica esperto.” Aquilo me marcou.
De lá pra cá, voltei ao Rio várias vezes, sempre tentando dar uma segunda chance à cidade. Fui a Santa Teresa, ao Leme, ao Maracanã, à Lapa — lugares incríveis, cheios de história e cultura. Mas a sensação de insegurança nunca me deixou. A cada esquina, a cada notícia de tiroteio, a cada alerta de morador, o encanto ia sendo substituído por preocupação.
Como radialista e comunicador, tenho o dever de falar a verdade pra quem me ouve e confia nas minhas palavras. E a verdade é que o Rio de Janeiro, apesar de ser lindo, não é hoje um destino que eu recomendo para o turista comum — especialmente aquele que vem de fora, desavisado, achando que vai encontrar apenas praia, sol e samba.
O turismo no Rio virou uma roleta russa. Você pode ter um fim de semana maravilhoso, com gente simpática, comida boa e paisagens de cinema. Ou pode acabar no meio de um arrastão, um assalto, um confronto policial, um “vai que cola” que vira tragédia. E isso não é exagero. É o que o próprio carioca vive no dia a dia — e o que eu, como visitante, senti na pele.
Não quero ser injusto com o povo do Rio. Ao contrário: o carioca é, sem dúvida, um dos povos mais acolhedores do Brasil. Faz piada com a própria desgraça, tenta viver bem mesmo quando o caos domina. Já entrevistei motoristas de aplicativo, garçons, músicos de rua, todos com histórias de luta, de amor à cidade e de tristeza com o que ela se tornou. “O Rio é bonito demais pra estar nas mãos erradas”, me disse um rapaz na Lapa certa vez. Concordei na hora.
O problema é que o turismo precisa de segurança. Não adianta ter beleza natural se o visitante não pode andar com uma câmera, se precisa esconder o celular, se vive olhando pros lados. O medo consome a experiência. Eu, que costumo andar com meu equipamento de gravação, já deixei de gravar em vários pontos da cidade por pura precaução. E isso, pra quem vive de registrar o Brasil, é frustrante demais.
Alguns amigos dizem que estou exagerando, que toda cidade grande tem violência. Pode ser. Mas o Rio tem algo diferente: uma sensação de instabilidade que assusta até quem é acostumado com o perigo. Você nunca sabe onde é seguro, e o mapa do medo muda de um dia pro outro. O GPS pode te mandar por uma rua bonita de manhã e perigosa à tarde. Isso não é turismo, é aventura — e daquelas que ninguém quer viver.
O que mais me entristece é saber que o Rio poderia ser o destino número um do país. Tem tudo pra isso. Cultura, natureza, gastronomia, hospitalidade. Mas falta o essencial: segurança e gestão pública séria. O carioca quer viver em paz, e o turista quer visitar sem medo. Até isso acontecer, infelizmente, meu conselho é um só: pense duas vezes antes de escolher o Rio como seu próximo destino.
Não digo isso com raiva, mas com pesar. Porque eu amo o Brasil e quero ver todas as nossas cidades brilhando. Mas também sou sincero com quem me acompanha no Roberto no Trecho. E sinceridade, às vezes, dói.
Se você quer praia, sol e tranquilidade, o Brasil oferece muitas opções: o Nordeste com suas águas mornas, Santa Catarina com suas praias limpas, o Espírito Santo com sua hospitalidade. O Rio de Janeiro, por enquanto, fica pra quem conhece bem os caminhos — e pra quem tem sangue frio o bastante pra admirar a beleza de longe, com um olho no mar e o outro na esquina.
Sou o Roberto, de Brasília, radialista e contador de histórias. Já vi de tudo nesse trecho de estrada que é o Brasil. E posso dizer, com o coração apertado: o Rio continua lindo, mas perigoso demais pra ser destino de férias.
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