A análise de programas policiais na TV
Os programas policiais de televisão no Brasil parecem ter descoberto um fenômeno curioso da existência humana: pessoas não apenas perdem objetos, chaves ou documentos — elas perdem a própria vida. E, pelo visto, perdem com uma frequência alarmante, a julgar pela quantidade de apresentadores indignados, trilhas dramáticas e closes em rostos compungidos. Fica a dúvida inevitável: quantas dessas pessoas, afinal, já encontraram a vida novamente? Existe um setor de “achados e perdidos existenciais” funcionando em algum lugar? Ou será que a vida, uma vez extraviada, entra para aquele mesmo limbo onde vão parar meias desaparecidas e controles remotos?
O mais fascinante é a abordagem quase burocrática do drama humano. O apresentador, com voz grave e olhar firme, anuncia que “mais uma vida foi perdida”, como se estivesse relatando o extravio de uma encomenda nos Correios. A pergunta que ninguém faz — talvez por medo de estragar o roteiro — é simples: alguém procurou direito? Houve um esforço coletivo para localizar essa vida? Ou, diante da primeira dificuldade, decidiu-se encerrar as buscas porque “não lembravam onde tinham deixado”? Afinal, perder algo pressupõe a possibilidade de encontrar, mas o discurso desses programas sugere que a vida, uma vez perdida, já vem com atestado automático de irrecuperável.
Há também um componente quase pedagógico nessas narrativas. O telespectador aprende, diariamente, que a vida é algo extremamente fácil de perder e aparentemente impossível de recuperar. Não há tutoriais, não há manuais, não há sequer uma central de atendimento. Em nenhum momento se vê alguém dizendo: “Calma, vamos refazer os passos, onde foi a última vez que você viu sua vida?” Talvez isso tornasse o programa menos dramático, menos vendável, menos espetacular. Porque, no fundo, a lógica do espetáculo exige a irreversibilidade: a vida precisa estar definitivamente perdida para que a indignação renda bons pontos de audiência.
E o que dizer da insistência em transformar cada caso em um grande mistério moral, quando a própria linguagem utilizada já entrega uma contradição? Se algo foi perdido, há sempre a possibilidade de que tenha sido encontrado por alguém — ou que esteja apenas fora do alcance imediato. Quantas dessas “vidas perdidas” não poderiam, em tese, ser “vidas não procuradas”? Quantas histórias deixam de explorar o antes, o durante, os caminhos que levaram até aquele desfecho, preferindo focar apenas no impacto final? É mais fácil trabalhar com a ideia de perda definitiva do que com a complexidade de processos, escolhas e circunstâncias que, muitas vezes, são bem menos televisivas.
O sarcasmo aqui não é gratuito, mas inevitável diante da repetição quase industrial desse formato. A cada dia, novos casos, novas “vidas perdidas”, novas promessas de justiça que raramente dialogam com a profundidade do problema. Parece que há uma linha de produção de tragédias embaladas para consumo rápido, onde o sofrimento alheio vira produto e a reflexão é substituída por frases de efeito. E, curiosamente, ninguém interrompe a transmissão para perguntar o óbvio: será que estamos mesmo entendendo o que significa “perder a vida”, ou apenas repetindo um clichê que nos impede de pensar além?
No fim das contas, esses programas acabam funcionando como um espelho distorcido da sociedade: mostram muito, mas explicam pouco; gritam alto, mas escutam quase nada. E seguem contabilizando “vidas perdidas” como se fossem números em um placar invisível, sem jamais questionar se, em algum momento, houve uma tentativa real de encontrar, compreender ou evitar essas perdas. Talvez seja mais confortável assim. Procurar exige esforço, memória, responsabilidade. Já declarar algo como perdido é rápido, definitivo e, sobretudo, rende audiência.
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