A verdade sobre falta Água em Sergipe
A pergunta de um bilhão de reais precisa ser feita sem rodeios: quem vendeu o serviço de água e esgoto em Sergipe? E mais importante — com base em quê? Porque quando se observa o cenário atual, com críticas direcionadas à Iguá Saneamento, parece que a memória coletiva foi convenientemente apagada. Antes dela, quem operava era a DESO, uma estatal que, durante décadas, acumulou problemas estruturais, operacionais e financeiros sob a supervisão direta do Governo do Estado de Sergipe. Então, a crítica não pode ser seletiva — ou se analisa o todo, ou se faz teatro.
A DESO não foi retirada do serviço por acaso ou capricho ideológico. Houve uma decisão política baseada em um diagnóstico — correto ou não — de que a estatal não entregava o que a população precisava. Falta de investimentos, perdas de água, ineficiência operacional e dificuldade de expansão dos serviços eram problemas recorrentes. A pergunta incômoda é: se a DESO era tão eficiente como alguns agora tentam pintar, por que houve a necessidade de licitar o serviço? E mais — durante todos esses anos de gestão estatal, quem fiscalizava a própria DESO? O governo multava a si mesmo?
Agora, com a entrada da iniciativa privada, o discurso muda de tom. A cobrança aparece, a régua sobe, e a população passa a enxergar problemas que sempre existiram — só que antes estavam “normalizados”. Isso não é uma defesa da Iguá, longe disso. Empresas privadas devem ser cobradas com rigor, transparência e responsabilidade. Mas é intelectualmente desonesto fingir que os problemas começaram agora. O que existe hoje, na verdade, é um reflexo de décadas de gestão acumulada, decisões políticas e ausência de planejamento consistente.
Outro ponto que precisa ser escancarado: a responsabilidade do governo não termina quando o contrato é assinado. Pelo contrário, ela aumenta. Conceder ou privatizar um serviço essencial não é lavar as mãos, é assumir o papel de regulador e fiscalizador. Se há falhas na prestação atual, o governo estadual precisa explicar quais mecanismos de controle estão sendo aplicados. Existe fiscalização efetiva? Existem penalidades sendo aplicadas? Ou estamos apenas assistindo a um jogo de empurra onde ninguém assume a conta?
A narrativa fácil — culpar exclusivamente a empresa atual — pode até render manchete, mas não resolve o problema. É preciso olhar para trás e entender como chegamos até aqui. Quem tomou a decisão de transferir o serviço? Quais foram os critérios? Quais garantias foram exigidas? E principalmente: quem responde hoje se o serviço não atende à população? Porque no fim das contas, seja estatal ou privado, o cidadão quer água na torneira e esgoto tratado — não quer saber de desculpas técnicas ou disputas políticas.
Portanto, a pergunta continua ecoando, incômoda e necessária: quem vendeu o serviço para a Iguá — e por quê? Enquanto essa resposta não for dada com transparência, o debate continuará raso, emocional e incompleto. Criticar é legítimo, mas precisa ser honesto. Caso contrário, seguimos apenas trocando o alvo, enquanto o problema estrutural permanece intocado.
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