A verdade sobre a música

 Ao observar a cena musical brasileira a partir de 2004, percebe-se um deslocamento preocupante de critérios que outrora sustentavam a grande arte. A indústria, cada vez mais guiada por algoritmos, tendências efêmeras e estratégias de marketing, passou a privilegiar a repetição fácil em detrimento da densidade estética. Nesse contexto, o chamado “sertanejo universitário” surge como um fenômeno de massa que, embora popular, carrega em si uma contradição quase irônica: universitário no nome, mas raramente comprometido com qualquer evolução artística consistente. Letras previsíveis, arranjos padronizados e uma dependência excessiva de fórmulas comerciais transformaram o gênero em uma linha de produção musical, onde a identidade cede lugar à conveniência. Não se trata de negar o direito ao sucesso popular, mas de questionar o empobrecimento do conteúdo e a ausência de ousadia criativa que marcam boa parte dessas carreiras.

É inevitável comparar essa realidade com períodos em que a música brasileira era alicerçada em técnica, interpretação e emoção genuína. O que se observa hoje é uma pressa em alcançar o estrelato sem o devido amadurecimento artístico. Muitos artistas surgem com grande visibilidade digital, mas desaparecem com a mesma rapidez, vítimas de um sistema que consome e descarta talentos sem lapidação. O “nunca se forma” do sertanejo universitário não é apenas uma crítica jocosa ao nome do gênero, mas uma constatação de que falta aprofundamento: falta estudo, falta repertório, falta história. A música deixa de ser expressão para se tornar produto, e o artista, por sua vez, torna-se refém de números de streaming, coreografias virais e refrões descartáveis.

Em contraponto a essa superficialidade contemporânea, é imprescindível reverenciar nomes como Vicente Celestino e Lindomar Castilho, artistas que representam uma era em que cantar era, acima de tudo, interpretar a alma humana. Vicente Celestino, com sua voz potente e formação lírica, elevou a canção popular a um patamar quase operístico, imprimindo dramaticidade e técnica raramente vistas. Já Lindomar Castilho, com sua intensidade emocional e narrativa visceral, marcou gerações ao transformar dor e paixão em arte autêntica. Ambos são exemplos de uma música que não temia ser profunda, que não se envergonhava de emocionar e que exigia do artista mais do que carisma: exigia entrega, estudo e verdade. São referências que não apenas resistem ao tempo, mas o transcendem.

Diante desse contraste, cabe à crítica e ao público uma reflexão urgente sobre os rumos da música brasileira. Não se trata de nostalgia vazia, mas de reconhecer valores que se perderam no caminho. Reverenciar artistas como Vicente Celestino e Lindomar Castilho não é um exercício de saudosismo, mas um ato de justiça cultural. É lembrar que a música pode — e deve — ser mais do que entretenimento passageiro; ela pode ser memória, identidade e arte em sua forma mais elevada. Enquanto o mercado insiste em fórmulas rápidas, cabe aos ouvintes mais atentos resgatar o apreço pela qualidade, pela originalidade e pela emoção verdadeira. Afinal, a grande música não é aquela que apenas toca nas rádios, mas aquela que permanece viva no espírito de quem a escuta.

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