Clandestino ou irregular?

 Há uma certa ousadia quase artística na forma como alguns jornalistas e influenciadores de YouTube que cobrem o transporte rodoviário de passageiros conseguem errar com tanta convicção. Não é um erro tímido, acidental — é um erro performático, repetido, defendido e amplificado como se fosse verdade revelada. E no centro desse espetáculo está a confusão entre “clandestino” e “irregular”. Porque, claro, por que usar o termo correto quando se pode escolher o mais chamativo, o mais dramático, o que parece mais “denúncia” do que explicação?

Vamos organizar a casa, ainda que isso seja pedir demais para quem prefere roteiro raso a conteúdo sólido. “Clandestino”, no uso mais apropriado, está ligado a alguém que entra ou permanece em um país sem autorização — ou seja, um estrangeiro em situação ilegal. Já o transporte, quando opera fora das normas, não é “clandestino” no sentido técnico mais adequado: é irregular. Pode até existir, pode até ter algum tipo de vínculo anterior com o sistema, mas está em desacordo com regras, licenças ou exigências. É uma diferença básica, quase didática, mas que parece invisível para quem troca precisão por espetáculo.

Mas não, no universo paralelo desses comunicadores, tudo vira “clandestino”. A van está com documentação vencida? Clandestina. O ônibus saiu de um ponto não autorizado? Clandestino. O motorista não agradou na abordagem? Já sabem: clandestino também. É o adjetivo curinga, o tempero forte que mascara a falta de conhecimento. E quanto mais repetem, mais acreditam — e pior, mais convencem quem está assistindo, criando uma cadeia de desinformação que se retroalimenta.

O mais curioso é o tom de autoridade com que esses equívocos são apresentados. Há sempre uma narrativa inflamada, uma indignação ensaiada, como se estivessem denunciando um grande esquema obscuro, quando na verdade estão apenas confundindo conceitos básicos. Regulamentação, concessão, permissão, fiscalização — tudo isso vira um amontoado indistinto, onde o que foge do ideal é imediatamente rotulado como “clandestino”, porque dá mais impacto no título do vídeo e mais cliques na postagem.

E o prejuízo não é só linguístico, é prático. Quando se chama de clandestino aquilo que é irregular, embaralha-se o debate público, dificulta-se a compreensão do problema e cria-se uma percepção distorcida da realidade. Usuários passam a não entender seus direitos, operadores são rotulados de forma inadequada, e a discussão sobre melhoria do sistema vira um teatro de acusações mal formuladas. Mas, novamente, quem se importa com isso quando o algoritmo está sorrindo?

Há também um componente quase cômico na resistência a qualquer correção. A tentativa de explicar a diferença entre os termos costuma ser recebida com desdém, ironia ou até ataque. Afinal, admitir que usou o termo errado não rende engajamento. Melhor dobrar a aposta, reforçar o erro e, se possível, transformar a ignorância em opinião firme. É o triunfo da confiança sobre o conhecimento — uma combinação perigosa, mas aparentemente muito rentável.

No fim, o que se vê é um retrato nada lisonjeiro de parte da comunicação sobre o setor rodoviário: barulho demais, precisão de menos. Não se exige que todo influenciador seja um especialista em regulação de transportes, mas saber a diferença entre “clandestino” e “irregular” já seria um excelente começo. Até lá, seguimos assistindo a esse desfile de certezas equivocadas, onde o transporte irregular é tratado como clandestino e o básico da língua e da técnica fica pelo caminho — atropelado, ironicamente, pelo mesmo ônibus que tentam descrever.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os Bons Serviços da Satélite Norte e o Exemplo do Bilheteiro Raimundo

Um retrato da rodoviária interestadual de Brasília: o contraste entre o luxo e o descaso

Quando a viagem se encerra — meu adeus à Viação Catedral Ltda., às linhas perdidas e à estrada que se fecha

Entre o microfone e a rodoviária – reflexões de um brasiliense sobre a marginalidade em Goiânia