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Homenagem ao ex governador Marcelo

 Falar de Marcelo Déda é, antes de tudo, revisitar um tempo em que a política conseguia dialogar com a dignidade, mesmo em meio às divergências ideológicas. Filiado ao Partido dos Trabalhadores, Déda construiu sua trajetória dentro de uma linha claramente situada à esquerda do espectro político, defendendo pautas sociais e um modelo de gestão voltado à inclusão. Ainda assim, sua atuação nunca se limitou a um campo fechado de aliados. Pelo contrário, uma das marcas mais fortes de sua vida pública foi justamente a capacidade de estabelecer pontes com adversários, cultivando o respeito mútuo em um cenário frequentemente dominado por conflitos acirrados. Esse reconhecimento não partia apenas de seus correligionários, mas também de opositores que, mesmo discordando de suas ideias, viam nele um homem de palavra, coerente e comprometido com o interesse público. Ao longo de sua carreira, que incluiu passagens como deputado federal e governador de Sergipe, Déda demonstrou que a política pod...

Verdades da vida de casados

 O casamento, ao menos em sua essência simbólica e cultural, nasce de um compromisso solene que vai além da formalidade de uma cerimônia. Os votos trocados entre duas pessoas representam promessas de cuidado, respeito, parceria e permanência diante das adversidades. No entanto, o que se observa com frequência crescente é um distanciamento entre o que se promete no altar e o que se pratica no cotidiano. O que deveria ser um espaço de acolhimento mútuo transforma-se, em muitos casos, em um ambiente de indiferença, descaso e até desprezo. Esse contraste revela não apenas a fragilidade das relações modernas, mas também uma banalização perigosa do próprio significado do casamento, que passa a ser tratado como algo descartável, moldado por conveniências momentâneas. O problema não está nas dificuldades naturais da convivência, pois todo relacionamento exige esforço, adaptação e maturidade emocional. O verdadeiro caos surge quando marido e esposa deixam de reconhecer a responsabilidade qu...

Parabéns ao povo de Itabaiana

 A realização da quarta edição da feira do livro de Itabaiana, em 2026, representa mais do que um evento cultural no calendário sergipano: é a consolidação de um projeto que valoriza o conhecimento, incentiva a leitura e fortalece a identidade de um povo que historicamente demonstra vocação para o comércio, mas que também revela crescente sensibilidade para a cultura e a educação. Em um cenário nacional onde os índices de leitura ainda são desafios constantes, iniciativas como essa feira se tornam fundamentais para aproximar o livro da população, especialmente de crianças e jovens que muitas vezes não têm acesso facilitado a espaços literários. Apoiar esse evento é, portanto, apoiar a formação de cidadãos mais críticos, mais informados e mais preparados para os desafios do futuro. A feira do livro não deve ser vista apenas como um ponto de venda de obras literárias, mas como um verdadeiro ambiente de troca de ideias, de encontros e de experiências transformadoras. Em Sergipe, onde ...

Nem MPF nem ANTT pensão no usuário de ônibus rodoviário de passageiros

 A recente movimentação do Ministério Público Federal (MPF) no sentido de tentar suspender licitações para novos serviços rodoviários reacende um debate antigo e necessário sobre o transporte interestadual de passageiros no Brasil. A proposta, que em tese busca corrigir distorções e garantir maior legalidade e qualidade no setor, levanta questionamentos relevantes quando analisada à luz da realidade enfrentada diariamente pelos usuários. Afinal, interromper processos licitatórios pode significar, na prática, congelar um sistema que já apresenta sinais evidentes de desgaste, ineficiência e baixa competitividade. A crítica que se impõe não é à intenção de fiscalizar ou corrigir, mas à consequência potencial de paralisar avanços em um setor que precisa urgentemente de renovação. Ao mesmo tempo, é impossível ignorar o papel da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) nesse cenário. A agência, que deveria atuar como indutora de melhorias e reguladora equilibrada do mercado, mui...

Refutando quem diz que Ana Paula não saiu por insistência do pai

 A decisão de Ana Paula, participante do BBB 26, de permanecer no reality show mesmo após ser informada da morte do próprio pai, levanta uma discussão incômoda sobre prioridades, valores e os limites entre ambição pessoal e responsabilidade afetiva. Em um contexto no qual o programa é estruturado como uma competição de resistência emocional e psicológica, a escolha de continuar pode ser interpretada como frieza ou cálculo estratégico, especialmente quando se trata de um evento tão profundamente humano quanto o luto. A comoção pública não surgiu por acaso: trata-se de um momento que, para a maioria das pessoas, exige recolhimento, reflexão e proximidade familiar. Ao optar por permanecer, Ana Paula rompe com essa expectativa social, o que inevitavelmente gera estranhamento e críticas contundentes. Grande parte da repercussão negativa gira em torno da percepção de que houve uma inversão de valores. Para muitos, a presença no programa — motivada por fama e dinheiro — não deveria se sob...

Explicando os funcionários públicos indiretos

 A crítica à forma como gestores públicos — sejam eles federais, estaduais ou municipais — conduzem a ocupação de cargos na administração revela um problema estrutural que, há décadas, compromete a eficiência, a imparcialidade e a legitimidade do Estado brasileiro. Trata-se da preferência recorrente por nomeações em cargos comissionados em detrimento da realização de concursos públicos para o provimento de funções permanentes. Embora a legislação permita a existência de cargos de livre nomeação e exoneração para funções de confiança e assessoramento, o uso indiscriminado desse mecanismo acaba por distorcer sua finalidade original, transformando-o em instrumento de aparelhamento político e fragilização institucional. O concurso público, previsto na Constituição, não é um capricho burocrático: ele representa um dos pilares da administração pública moderna, garantindo isonomia, meritocracia e estabilidade funcional. Ao optar por não realizar concursos e, em seu lugar, preencher estrut...

A análise de programas policiais na TV

 Os programas policiais de televisão no Brasil parecem ter descoberto um fenômeno curioso da existência humana: pessoas não apenas perdem objetos, chaves ou documentos — elas perdem a própria vida. E, pelo visto, perdem com uma frequência alarmante, a julgar pela quantidade de apresentadores indignados, trilhas dramáticas e closes em rostos compungidos. Fica a dúvida inevitável: quantas dessas pessoas, afinal, já encontraram a vida novamente? Existe um setor de “achados e perdidos existenciais” funcionando em algum lugar? Ou será que a vida, uma vez extraviada, entra para aquele mesmo limbo onde vão parar meias desaparecidas e controles remotos? O mais fascinante é a abordagem quase burocrática do drama humano. O apresentador, com voz grave e olhar firme, anuncia que “mais uma vida foi perdida”, como se estivesse relatando o extravio de uma encomenda nos Correios. A pergunta que ninguém faz — talvez por medo de estragar o roteiro — é simples: alguém procurou direito? Houve um esfor...

Editorial: Ana Paula e o Prêmio do BBB 26

O problema não está no resultado — até porque ele ainda não existe —, mas na construção antecipada de uma narrativa. A vitória de Ana Paula no BBB 26, impulsionada pela comoção em torno da morte de seu pai durante o programa, revela um comportamento coletivo que merece análise antes mesmo do desfecho. Sob a ótica de Roberto Ferreira Felgueiras, o que se observa não é apenas torcida, mas uma inclinação perigosa de transformar tragédia pessoal em critério de escolha. A pergunta, portanto, surge antes da final: estamos preparados para julgar o jogo com racionalidade ou já nos rendemos à emoção? A perda de um pai é, indiscutivelmente, uma das dores mais profundas que alguém pode experimentar. No entanto, quando essa dor ocorre em um ambiente televisivo de grande audiência, ela deixa de ser apenas íntima e passa a compor uma narrativa pública. E é exatamente nesse ponto que a análise precisa ser feita com cuidado. A permanência de Ana Paula no jogo, mesmo diante de uma situação tão delicada...