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Editorial: A verdade das mudanças portuguesas

 As recentes alterações na legislação migratória de Portugal representam, antes de qualquer julgamento apressado, uma tentativa clara de reorganizar um sistema que vinha sendo pressionado por práticas desordenadas e, em muitos casos, exploratórias. Ao longo dos últimos anos, consolidou-se uma percepção equivocada de que entrar no território português era um processo simples, quase automático, alimentado por discursos superficiais em redes sociais e por intermediários que lucravam com a desinformação. Essa visão distorcida contribuiu para um cenário de descontrole, no qual regras eram ignoradas, exigências legais eram minimizadas e expectativas irreais eram vendidas como garantias. Diante disso, apoiar as mudanças não é fechar portas, mas reconhecer a necessidade de estabelecer critérios mais sólidos e responsáveis, capazes de preservar tanto o país quanto aqueles que verdadeiramente desejam construir uma vida digna em solo português. Durante esse período de flexibilização excessiva...

O erro de quem usa o termo fake news

 Existe uma expressão que ganhou popularidade nos últimos anos e que, repetida à exaustão, acabou se tornando um curioso paradoxo linguístico: “fake news”. Traduzida ao pé da letra como “notícia falsa”, ela carrega em si uma contradição quase cômica. Afinal, desde quando uma mentira pode ser classificada como notícia? A própria essência do jornalismo — ou pelo menos do jornalismo sério — é o compromisso com a verdade, com a apuração dos fatos e com a responsabilidade de informar. Quando esse compromisso é rompido, o que sobra não é uma “notícia falsa”, mas simplesmente uma mentira, uma fraude ou, na melhor das hipóteses, uma desinformação mal disfarçada. O uso indiscriminado do termo “fake news” acabou criando uma espécie de zona cinzenta onde tudo parece relativo. Uma informação mentirosa, que antes seria prontamente descartada como boato ou invenção, ganha um rótulo sofisticado, quase técnico, que parece lhe conferir um certo status. É como se a mentira tivesse sido reembalada co...

Clandestino ou irregular?

 Há uma certa ousadia quase artística na forma como alguns jornalistas e influenciadores de YouTube que cobrem o transporte rodoviário de passageiros conseguem errar com tanta convicção. Não é um erro tímido, acidental — é um erro performático, repetido, defendido e amplificado como se fosse verdade revelada. E no centro desse espetáculo está a confusão entre “clandestino” e “irregular”. Porque, claro, por que usar o termo correto quando se pode escolher o mais chamativo, o mais dramático, o que parece mais “denúncia” do que explicação? Vamos organizar a casa, ainda que isso seja pedir demais para quem prefere roteiro raso a conteúdo sólido. “Clandestino”, no uso mais apropriado, está ligado a alguém que entra ou permanece em um país sem autorização — ou seja, um estrangeiro em situação ilegal. Já o transporte, quando opera fora das normas, não é “clandestino” no sentido técnico mais adequado: é irregular. Pode até existir, pode até ter algum tipo de vínculo anterior com o sistema,...

Aula de evangelho grátis

 A crescente prática de igrejas que anunciam a presença de “profetas de Deus” em cultos e eventos levanta uma discussão necessária sobre coerência bíblica e responsabilidade espiritual. Muitos desses encontros são divulgados com forte apelo emocional, prometendo revelações exclusivas, palavras direcionadas e experiências sobrenaturais que, na prática, acabam mais próximas de um espetáculo do que de um momento genuíno de fé. O problema não está na busca espiritual em si, mas na forma como ela é conduzida, frequentemente explorando a expectativa das pessoas. Quando se recorre ao próprio texto bíblico, especialmente ao Livro de Números e à progressão histórica que culmina no Evangelho de Lucas, há uma compreensão clara de que o papel dos profetas tinha um contexto específico, ligado à revelação direta antes da consolidação da mensagem central do cristianismo. Dentro dessa perspectiva, a figura do profeta bíblico não era itinerante no sentido moderno de “agenda de eventos”, tampouco se...

Ensinando aos apresentadores sergipanos

 Se existe um talento peculiar em certos programas policiais de televisão, especialmente nas versões mais espalhafatosas que ecoam pelas telas sergipanas, é a capacidade de confundir conceitos jurídicos básicos com uma segurança digna de quem jamais abriu um código penal. É impressionante como, em meio a trilhas dramáticas, closes exagerados e frases de efeito, surgem pérolas como “foi uma tentativa de latrocínio, ou melhor, um latrocínio tentado, ou quem sabe um latrocínio mesmo”, tudo dito como se fosse a mesma coisa. Não é. E talvez esteja na hora de trocar um pouco da gritaria por um mínimo de precisão, porque informação errada, quando repetida com convicção, vira desinformação com plateia. Então, vamos lá: sem perder o tom didático, mas também sem poupar a ironia que o cenário merece. Primeiro, é preciso entender o que é latrocínio de fato. Latrocínio não é simplesmente “roubo com morte” dito de forma genérica no improviso televisivo. Juridicamente, trata-se de um crime contra...

A prostituição do mercado publicitário de Sergipe

 Há algo profundamente errado quando profissionais de comunicação, especialmente radialistas em Sergipe, passam a tratar o próprio trabalho como se fosse descartável, barato e sem valor. Cobrar cinco reais para gravar uma vinheta ou um spot comercial de 30 segundos não é apenas um preço baixo — é um desrespeito escancarado com a profissão, com os colegas de área e com o próprio mercado. Não se trata de elitismo ou de impedir que novos talentos entrem na área, mas de reconhecer que comunicação é técnica, é experiência, é investimento em voz, equipamento, edição e, acima de tudo, em credibilidade. Quando alguém aceita receber esse valor simbólico, praticamente inexistente, está assinando um atestado de desvalorização coletiva. É como dizer que todo o esforço necessário para produzir um material de qualidade não vale mais que uma moeda esquecida no bolso. E isso não afeta apenas quem cobra barato — afeta todos. O mais revoltante é perceber que essa prática cria um efeito dominó destru...

Leilão para concorrência ANTT?

 A atuação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) no cenário atual do transporte rodoviário interestadual levanta questionamentos cada vez mais difíceis de ignorar. De um lado, a agência promove discursos e iniciativas voltadas à modernização do setor, como a tentativa de leilão de linhas, apresentada como solução para ampliar a concorrência e melhorar a qualidade dos serviços. De outro, na prática cotidiana, o que se observa é uma evidente contradição entre o discurso regulatório e a fiscalização efetiva. Empresas que acumulam reclamações por serviços precários continuam operando normalmente, enquanto novos processos licitatórios são anunciados como se o problema estivesse apenas na entrada de novos operadores. Essa postura cria a sensação de que a ANTT busca resolver um problema estrutural com medidas superficiais, ignorando falhas graves naquilo que já existe. Nesse contexto, é impossível não citar a permanência de empresas como a Novo Horizonte e a Entran, frequen...

Incompetência do executivo e legislativo

 O bairro Fernando Collor, localizado no município de Nossa Senhora do Socorro, tornou-se ao longo dos anos um retrato incômodo da negligência do poder público municipal. Criado com a promessa de oferecer moradia digna e infraestrutura básica para centenas de famílias, o que se vê hoje é um cenário de abandono que beira o descaso institucionalizado. Ruas esburacadas, iluminação precária, ausência de saneamento adequado e equipamentos públicos insuficientes fazem parte do cotidiano dos moradores. Não se trata de uma crítica vazia ou exagerada, mas de uma constatação visível para qualquer pessoa que percorra a região. O bairro, que deveria ser símbolo de desenvolvimento urbano planejado, acabou se tornando um exemplo claro de como a falta de continuidade administrativa e de compromisso político pode comprometer a qualidade de vida de toda uma população. A precariedade da infraestrutura urbana no Fernando Collor é gritante e afeta diretamente aspectos básicos da dignidade humana. Em d...